A Fragilidade dos relacionamentos


Tenho escutado com muita frequência histórias de dores, angustias e medos de pessoas que buscam encontrar e viver uma vida a dois. Cabe aqui salientar que essas histórias nascem das tentativas de serem felizes. São homens e mulheres que ávidos na busca de encontrar companhia para a vida se sujeitam a situações inóspitas.

Ao que parece o “mito do amor romântico” ou amor ideal criado por nossa cultura invade a nossa mente e nos impulsiona a suportar as mais terríveis situações com a crença que no final seremos recompensados. A recompensa torna-se a esperança contra toda desesperança e acreditando no: “felizes para sempre” cada vez mais nos tornamos cegos, surdos e insensíveis as violências emocionais que somos acometidos.

Nilton Bonder no livro intitulado: O sagrado, diz: “Quanto mais desejo, menos dons; quanto mais desejo, menos escuta; quanto mais desejo, mais destino”, percebe-se que ao elegermos/desejarmos uma única forma de amar e ser amado, ou de parceiro(a), criamos um destino. O grande problema de fazer uma relação ou algo um destino ou carma, é que nos tornamos passivos, presos e não conseguimos enxergar novas possibilidades ou dimensões importantes da nossa vida.

Acreditando nesse destino reduzimos a nossa existência de 100 a 1 e elevamos apenas uma dimensão da nossa vida como sendo aquela que ao ser conquistada todos os problemas serão resolvidos e serei plenamente feliz. É muito comum encontrar gente por aí que deixa de comer, de ter amigos, de trabalhar apenas para focar na missão de encontrar o grande e único amor da sua vida.

Quero compartilhar algumas percepções sobre vínculos que estabelecemos de forma incorreta que não nos conduzem ao amor verdadeiro, mas sim, a um cárcere emocional.

Os vínculos estabelecidos por fragilidades são as relações que nascem e estabelecem pelas nossas fraquezas. São vínculos que são forjados por nossas sombras e inseguranças.  Esses vínculos são perigosos, pois, às vezes são curtos e ora geram dependência emocional.

A duração desses vínculos é muito relativa de pessoa para pessoa e varia de acordo com a situação. Sabe se que quando um relacionamento nasce por motivos que não o desejo de caminhar juntos, amor verdadeiro e um projeto de vida tende a durar pouco.  Por exemplo, uma pessoa que tem muito medo de ficar sozinha se aproxima de outra pessoa para não se sentir se só. Talvez no início da relação seja bem gostoso, pelo apego, atenção e etc. Entretanto a partir do momento que a pessoa não se sentir mais sozinha a relação pode perder o sentido e acabar. Isso acontece com quem se aproxima por dinheiro, fama, posição social, seja qual for o motivo se não houver amor verdadeiro não perdura.
 
Quantos casamentos são realizados por causa de uma gravidez indesejada e logo após o nascimento ou anos depois a relação se rompe.  Situações como essa apenas evidenciam que no amor não existe arranjos para dar certo, pelo contrário é necessário coragem e cuidado. Um relacionamento que busca ser saudável, não vem de remendos e meio termos, mas de uma abertura total para este outro com suas contingências e singularidades.  Li em algum lugar: “o amor não cega, mas nos torna lúcido”. È Isso que cantou Renato Russo na música Castelo Branco: “É só o amor! É só o amor! Que conhece o que é verdade”.

Há outros casos onde sedentos em encontrar descanso para nossas almas depositamos no outro todas as nossas apostas. Fazemos do outro um fim em si mesmo. Ouço com muita frequência pessoas me dizendo: “Faço tudo por ele(a) e não me dá valor... Somente eu que corro atrás..” e muitas coisas semelhantes a estas. Entretanto quando converso com essas pessoas percebo a fragilidade direcionando suas vidas. Não é raro ver pessoas que estacionam na vida aguardando o seu parceiro (a) decidir se vai caminhar junto; pessoas que se contentam com migalhas de atenção apenas para provar a família que não esta mais sozinho(a). Outros chegam a acreditar que tempo juntos gera algum fundo de garantia, dizem: “estamos tanto tempo juntos, melhor deixar assim...”, mas no fundo o que realmente faz com que se sujeitem a relações tão ruins são as fragilidades que motivaram a escolher seu parceiro. Conheço gente que se humilha, se estraçalha e não nega esforços para agradar o outro, mas não são amadas. Há gente que negocia sua fé, briga com os pais, rompe com amigos, gasta dinheiro e perde sua saúde e o desprezo permanece. Tudo isso por causa das sombras e dos fantasmas das nossas inseguranças que nos aprisionam a esse tipo de relação nos fazendo crer que não existe felicidade fora desse circulo vicioso dor-sofrimento-insistencia.

O psiquiatra espanhol Enrique Rojas no livro intitulado: Amor Inteligente, diz: Nenhuma pessoa pode representar tudo para a outro pessoa. Ninguém pode ser absoluto para o outro. Pode ser quase tudo, mas nunca uma plenitude definitiva. Por quê? Porque o homem é um ser referencial: não é nem causa nem origem de seu fim; é caminho para algo. Por isso ninguém está capacitado para preencher alguém totalmente e para sempre. É necessária uma referência superior”. Rojas, nos convida a mudar o nosso olhar para os nossos relacionamentos nos mostrando que os nossos companheiros não são a nossa felicidade, ou salvação dos problemas, mas um caminho para algo maior. Acredito que o algo maior seja Deus e/ou um projeto de vida. O relacionamento a dois deve sempre apontar para o além, e não somente o aqui e agora.

No livro o Banquete do filosofo  Kierkegaard o mesmo escreve: “o amante não pode explicar nada, não sabe explicar nada. Viu centenas de mulheres; deixou talvez passar muitos anos sem experimentar o amor; e um dia, de repente, vê a sua mulher, a única, a Catarina. Veja bem, não existem segredos ou formulas para encontrar um parceiro(a) ideal. A única certeza que temos é do “de repente”. Uma vez que não sabemos como e quando vai acontecer podemos ao menos nortear essa abertura com princípios que não torne a caminha a dois um pesadelo.  E posso dizer com certeza só existe felicidade verdadeira se houver dignidade.