quarta-feira, 6 de maio de 2015

Sobre a Noite

A noite é um estado de espírito. Quando nos rouba o sono, atemoriza, turva a visão, obscurece a mente, atira-nos num redomoinho capaz de erguer e fazer flutuar todo o lixo que trazemos na alma. A noite alucina os fantasmas ocultos nos recôndidos do nosso ser; arrranca-os de suas cavernas e, ébrios de loucura, eles bailam ao ritmo de nossas covardias, medos e indecisões. Ameaçam, com suas pompas fúnebres, nossas frágeis esperanças; despedaçam-nas ao encontro das rochas do destino. Este é implacável! Quem se sobrepõe aos ditames da morte? Onde a luz de Diógenes vislumbra um rumo? Trafegamos tontos por nossas próprias inseguranças. Até que a noite, desfalecida pelo irromper da aurora, nos entregue lúcidos, assustadoramente lúcidos, nos braços acolhedores do dia. Dissipados fantasmas e temores, ingressamos na luz que aquieta o coração e livra a mente de todo estupor. Resta-nos, então, caminhar, caminhar ainda que sem rumo, mas caminhar. Paulo Freire – Aldeia do Silêncio, p. 49-50.