quarta-feira, 6 de maio de 2015

Futuro

O futuro inexiste. Tudo é presente, e o que já não é presente é passado, ao qual jamais se pode retornar, exceto por meio da memória, capaz de retratar imprecisamente o passado no presente. A memória é o anzol empenhado em fisgar o que subjaz nas águas turvas do rio de Heráclito. Futuro é sempre quimera. Existe na conjugação dos verbos, nos sonhos, nas ambições e nos projetos. É a morada do desejo. E o desejo, pulsão vital, nunca se contenta com o presente. Insaciável, escancara-nos à beira da encruzilhada: ser ou ter.Frei Beto – Aldeia do Silêncio, p. 50-51.

Sobre a Noite

A noite é um estado de espírito. Quando nos rouba o sono, atemoriza, turva a visão, obscurece a mente, atira-nos num redomoinho capaz de erguer e fazer flutuar todo o lixo que trazemos na alma. A noite alucina os fantasmas ocultos nos recôndidos do nosso ser; arrranca-os de suas cavernas e, ébrios de loucura, eles bailam ao ritmo de nossas covardias, medos e indecisões. Ameaçam, com suas pompas fúnebres, nossas frágeis esperanças; despedaçam-nas ao encontro das rochas do destino. Este é implacável! Quem se sobrepõe aos ditames da morte? Onde a luz de Diógenes vislumbra um rumo? Trafegamos tontos por nossas próprias inseguranças. Até que a noite, desfalecida pelo irromper da aurora, nos entregue lúcidos, assustadoramente lúcidos, nos braços acolhedores do dia. Dissipados fantasmas e temores, ingressamos na luz que aquieta o coração e livra a mente de todo estupor. Resta-nos, então, caminhar, caminhar ainda que sem rumo, mas caminhar. Paulo Freire – Aldeia do Silêncio, p. 49-50.