quarta-feira, 19 de julho de 2017

O que realmente importa é o caminhar

Desde muito cedo somos condicionados a pensar na vida como se esta fosse algo a ser conquistada ou vencida.  Devido a esse modo de pensar, transformamos a nossa existência numa grande corrida para se chegar ao pódio e nesse frenesi de se obter êxito na jornada perdemos de vista o que realmente importa – o caminhar.

Uma vez esquecido que o caminho faz o caminhante, a sociedade se torna mais pragmática, funcional, técnica. Estamos adquirindo um novo “modus vivendi” onde os resultados, o êxito e a produção tornaram-se a marca ou o status do valor humano - SOMOS O QUE PRODUZIMOS! 

Em uma conversa com uma colega de trabalho; ela disse: “Hoje em dia é o homem que gravita em torno das coisas”, depois dessa conversa fiquei pensando o que poderia ser essas "coisas" que o homem tanto gosta de gravitar. Quero aqui comentar algumas órbitas que criamos para girar e girar. Quero destacar duas: Estabilidade financeira e o sucesso.

Inicio aqui comentado sobre a segurança financeira que se tornou condição primeira para que os amores possam ser vividos, os sonhos realizados e os objetivos conquistados. A todo instante vejo jovens se preparando para concursos e mais concursos em busca da tão esperada “estabilidade financeira”.  Esse tem sido o grande dilema da humanidade obter estabilidade para viver. Percebe-se que o viver é deixado em segundo plano, isto é, a vida passa a ser uma recompensa adiada.

Em nome da estabilidade econômica amores não vividos, casamentos não acontecem, e a vida passa ser adiada, atrasada, programada.  Talvez esse texto possa ser lido com certa resistência, afinal, se programar evita problemas futuros e situações indigestas. Eu realmente concordo com você. Mas a vida é muito maior que as certezas ou seguranças que construímos, como bem disse Rainer M. Rilke em seu livro Cartas do poeta sobre a vida: “A vida é magnífica, precisamente por sua imprevisibilidade, a qual existe para nos surpreender e nos possibilitar a abertura, a criação no processo mesmo da travessia”.

Caros leitores façam planos, mas não se limite a pensar que só existe um jeito para ser feliz. A vida é imprevisível, não pode ser contida e não segue uma linha cartesiana. Use sua criatividade, refaça rotas, trace novos destinos e se permita viver o caminho. A poesia Todo Caminho de Guimarães Rosa, tem algumas dicas:

Todo Caminho- Guimarães Rosa

Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais
A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!...
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria,
E ainda mais alegre no meio da tristeza...

Não faça da estabilidade financeira ou desejo de conquistá-la um escudo que te protege ou te assegura do viver, mas assuma as suas contingências do caminho. Certeza, estabilidade e segurança são utopias.  Freidrich Nietzsche tem uma frase que gosto muito: “O que enlouquece é a certeza, não a dúvida. È do caos que nasce uma estrela”.

A segunda coisa que quero destacar é o sucesso.  Vejo muita gente que acredita que se alcançar o pódio será reconhecido e amado. Diversas vezes já ouvi expressões: “Se eu me tornar um advogado de sucesso vou conquistar diversas garotas... se eu me tornar famoso serei aceito...”, essas frases ou pensamentos revelam apenas que a nossa sociedade entende de forma incorreta o sucesso. Pensam que o sucesso é a condição para ser amado, ou que é o requisito para ser feliz.

Vivemos na era da mídia, da informação e também da tecnologia onde é muito fácil perceber em redes sociais ou noticiários que elucidam a ideia de que o sucesso profissional, acadêmico ou qualquer outra forma é o que caracteriza a vida boa ou feliz. Hoje são muito comuns cursos, coachings, livros, e tudo mais que fomentam condições, segredos, dicas para encontrar o sucesso. E mais uma vez caímos no mesmo engano de pensar a vida como um lugar aonde se chega e não o caminho percorrido.

O sucesso não é o prêmio. O sucesso é o processo que se conduz com a inteireza do ser. É quando aquilo que se propõe a fazer é realizado com amor, paz, harmonia. E este fazer não acontece dissociado da vida do caminhante. O sucesso não é a adequação a um mercado, mas quando faço algo que realmente nasceu dos sentidos e percepções apreendidas pelo caminho. Nada tem a ver de onde se chegar, mas sim como se vai.

Perceba que o tempo todo somos compelidos a usar Antolhos – que é um acessório utilizado nos animais de montaria e de carga para limitar a sua  visão e forçá-lo a olhar apenas para a frente, e não para os lados.

As palavras de Jesus Cristo registradas no evangelho de São Marcos 8:36 que diz: “Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”, são tão atuais e relevantes. Cristo estava dizendo aos discípulos (aos do caminho), que a existência é muito maior que as responsabilidades do dia a dia (comer, beber, vestir, pagar as contas), mas sim uma vida em sintonia com Deus(criador). È exatamente a sintonia com Deus e com a vida que nós conseguimos perceber que as coisas fazem parte do caminho, mas não é o caminho.

Então meus amigos, façam essa pergunta antes de iniciar a partida e se já estiver no caminho retire os antolhos e volte a ver. O essencial é sempre invisível aos olhos (Antoine de Saint-Exupéry) e a vida não refletida não vale a pena ser vivida (Soren Kierkegaard).

“Viver é se aventurar no desconhecido e fazer de cada momento uma celebração da vida”. Antunes.

Apesar dos medos.

Vivendo em paradoxo.
Multiplicando afetos.






terça-feira, 18 de julho de 2017

Zona de Conforto

O nascimento, mesmo contra nossa vontade, já é sair da zona de conforto, e cá entre nós, o útero deve ser o lugar mais seguro e confortável que já sabemos ter passado. “Nascer é o nosso primeiro grande desafio”.

A busca por um lugar seguro parece ser inerente a nós, buscamos sempre aquela sensação gostosa e segura na qual vivenciamos anteriormente. Mas a vida é dura! E, já num primeiro momento, o nascimento, é imposto a nós a hora de abandonarmos nossa casa (zona de conforto) e se haver com as coisas mundanas. Na verdade eles estão nos dizendo, movimente-se. Isso não é ruim, pena que nem sempre será assim. Nem sempre teremos alguém pra nos dar aquele empurrão de motivação.

Então a coisa começa a mudar. Já não é mais possível encontrar um lugar tão seguro quanto antes, pois a vida é muito incerta, fluída, líquida demais para termos um lugar seguro. A vida exige movimento.

O “conforto” aqui não é mais seguro, ele causa dor e sofrimento, pois aqui as ordens das coisas mudaram. Permanecer na zona de conforto na imobilidade é cruel demais, pois como já disse antes a vida exige movimento. 

A zona de conforto é entendida como falta de movimento, medo de arriscar, medo do novo, passividade frente à vida. Medo de sair da situação imaginária do "conforto" que no fundo é desconfortável, e esse desconforto, apesar de incomodo nem sempre é perceptível, ele é para nós inconsciente. 
Buscamos alguém para nos tirar da casinha e dizer: ande, viva, movimente-se assim como acorreu em nosso nascimento, onde fomos retirados de nossa casa (nossa zona de conforto) e imediatamente sacudido para a vida. Mas as coisas mudaram. As pessoas estão muito ocupadas sem tempo para o outro.

Por conta do desconforto que sentimos perante imobilidade, a falta de ação, em detrimento a diversas situações de vida que muitos procuram ajuda psicológica, pois quer que os resgatemos do “conforto” que gera um desconforto. Precisa se com urgência dar sentido a própria vida, pois a zona de conforto é avessa e não combina com sentido de vida. Na zona de conforto a pessoa, mesmo inconsciente, implora por mudanças. Essas só vão acontecer quando você fizer um movimento e sair desse “conforto”.

















Lembre-se que sair da zona de conforto não é confortável, por isso mesmo muitos permanecem por lá.

Abraços! 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Parecer Bem

Percebo que a nossa geração dicotomizou a vida em sentimentos positivos e/ou bons fluidos em contraste com os afetos negativos e/ou angustia. Essa leitura positivista transformou a vida boa ou bons sentimentos se é assim que posso dizer, como a única, possível e aceitável forma de se viver. Essa percepção da existência nega e exclui quaisquer que sejam os sentimentos, reflexões ou situações que causem tristeza, frustração e angústia.

Vivemos sobre a ditadura do “parecer bem”. Se observamos nossas redes sociais não existe a possibilidade do “não curtir”, ou “não concordo”, e essa falta de oposição ou diferença cauterizou o ser humano ao ponto de não mais conseguir refletir sobre si mesmo e sobre o que pensa e posta. Tenho ouvido com muita frequência a expressão, “estou me sentindo para baixo”, “não gosto de me sentir triste” ou “tem algo de errado comigo as coisas não dão certo”. Ao ouvir tais relatos percebo o quanto reduzimos a vida ou as perspectivas de se viver.

Sempre quando posso respondo a essas pessoas dizendo que o sol e a chuva caem sobre todos sejam bons ou ruins e que o desconhecido e o imprevisível deve ser aceito como atos da graça comum de Deus a todos os homens. Que os sentimentos e as angústias são como claraboias que permitem a entrada de luz a iluminar o nosso interior e o vento para levar o que não serve mais. Na maioria das vezes são os sentimentos que mais renegamos que são capazes de lançar luz sobre os escombros do nosso narcisismo, egoísmo; e também sobre nossas potencialidades nos depurando como o ouro. São as dores que nos humaniza para que não sejamos levados pela selvageria da vida. Então meu caro amigo ao invés de dizer que está se sentindo para baixo, diga: “Eu estou me sentindo mais para dentro”, e curta a viagem.